Paula Faour e a Música de Marcos Valle & Burt Bacharach | Paula Faour

Paula Faour e a Música de Marcos Valle & Burt Bacharach

Paula Faour e a Música de Marcos Valle & Burt Bacharach - 2009

“Leveza, Elegância, sensualidade e prazer são atributos que definem sua sonoridade.”
Lauro Lisboa – Jornal O Estado de S. Paulo

“Parabéns pelo seu Talento e bom gosto.”
Marcos Valle – Casa de Cultura Julieta de Serpa

“[Arragements] which offer plenty of room to showcase Faour`s jazzy style of piano…”
www.dustygroove.com

Clique nas faixas:

01 – Play “Samba de Verão / Do you know the way to San Jose”

02 – Play “Raindrops Keep Falling on my Head”

03 – Play “Seu Encanto (The face I love) / Wives and Lovers”

04 – Play “Terra de Ninguém”

05 – Play “Preciso Aprender a ser só(If you went away) / A House is not a home”

06 - Play “Arthur’s Theme”

07 – Play “Campina Grande / Promisses Promisses”

08 – Play “Pigmalião 70″

09 – Play “What the World Needs Now/ Um Novo Tempo”

10 – Play “I Say a Littlle Prayer/ Samba de Verão II”

 

Participações Especiais

Marcos Valle, Gilson Peranzzetta, Sergio Barrozo,
Cesar Machado, Carlos Malta e Ricardo Santoro

Depois de um disco de bossa-jazz lançado inicialmente no Japão e aclamado pela crítica internacional – Cool Bossa Struttin’ –, era preciso um novo trabalho que popularizasse um pouco mais o talento da pianista e arranjadora Paula Faour. Eis que, sabendo da loucura de minha prima pelas canções de Marcos Valle, lhe sugeri meio sem querer uma idéia desafiadora: – Por que não juntar Marcos e Burt Bacharach, outro favorito seu, num mesmo álbum, em que as músicas de um e de outro se misturassem?

Paula começou então a viajar nesse mar de canções envolventes sentindo que, mais do que “misturar” as músicas de ambos, o verdadeiro desafio consistia em combinar seus estilos e obras, fazendo prevalecer também o seu toque pessoal – seja ao piano, sempre suave e ao mesmo tempo suingado – ou nos arranjos, acrescentando frescor a canções tão marcantes e conhecidas do público. E não é que tudo começou a dar certo? Para mim não foi surpresa porque Paula tem realmente sensibilidade rara e a obra de Marcos Valle & Burt Bacharach têm muito mais em comum do que possa julgar nossa vã filosofia.

Burt veio ao Brasil pela primeira vez em 1959, enquanto ainda trabalhava como maestro da diva Marlene Dietrich, num show no Copacabana Palace que acabou virando disco. Aqui, se impressionou com o ritmo do baião, que inundava as rádios de então, desde que foi estilizado por Luiz Gonzaga no final dos anos 40. Daí que suas composições passaram a ter uma certa influência dessa quebrada rítmica do nosso velho e bom baião. Bacharach ficou mais conhecido como compositor a partir de 1962, quando Dionne Warwick passou a popularizar suas canções ano após ano, e em pouco tempo torno-se um dos últimos grandes gênios do cancioneiro americano.
Valle, por sua vez, apesar de 15 anos mais jovem que Burt, também começou a fazer sucesso no mesmo período que ele. Iniciando a carreira em 1963, teve no som jovial e impactante, com aquele clima solar, romântico e envolvente das melodias de Bacharach uma de suas principais referências – que para minha surpresa, ao entrevistá-lo para escrever estas linhas era até muito maior do que eu poderia supor. “Em 64, gravei o LP Samba demais. Naquele momento minha primeira grande influência foi de Bacharach. A divisão dos compassos e aquela mistura do baião, que eu também tenho em meu trabalho, as orquestrações completamente diferentes do que havia até então… aquilo me chamou a atenção, fora todas aquelas músicas incríveis”, conta Valle, que quando foi tocar com Sérgio Mendes em 1965, sugeriu canções de Bacharach para o repertório, pois passou a ser uma coisa muito marcante na música mundial. “Posso dizer que, de lá pra cá, ele foi a maior influência na minha música – até hoje”.

Com o mote do CD definido, procuramos o Marcos, que simpatizou imediatamente com a idéia. A partir de janeiro de 2008 fizemos algumas reuniões em sua casa e os arranjos modernos de Paula foram fascinando o compositor, que acabou por supervisionar todas as 10 faixas, chegando mesmo a sugerir uma das junções de músicas: Seu Encanto com Wives and Lovers. “Assim que comecei minha carreira, Jack Jones tinha gravado Wives and lovers e eu tinha paixão por essa música. Quando chega o sucesso de Samba de verão e eu vou pros EUA, por volta de 66, ele grava exatamente o Seu Encanto, que o arranjo me lembrava muito o do Wives… Tinha a mesma pulsação! Como era fã daquela gravação, quando ouvi minha música naquele mesmo clima achei sensacional. O Jack Jones conseguiu fazer uma ligação entre as duas coisas, que são bem diferentes”, analisa ele, que aprovou imediatamente o arranjo que sua pupila criou para esta fusão – um dos mais trabalhosos, diga-se. Aliás, a verdade é que os arranjos de Paula neste disco foram tão surpreendentemente bons que nos encantaram desde a primeira audição. Fossem nas junções de canções de Bacharach & Valle, ou nas duas canções-solo de cada um.

Roteiro enxuto

O repertório foi escolhido a dedo. Sem excessos. Aqui temos o essencial da obra de um e de outro. Ou pelo menos o essencial para que este cruzamento fosse o mais deliciosamente harmônico possível, com vários clássicos de ambos e também uma bossa menos conhecida de Valle, Samba de verão 2, gravada por ele em 1969 em seu LP Mustang Cor de Sangue e uma balada mais recente de Bacharach, Arthur’s Theme – única canção que fiz questão absoluta que Paula gravasse, pois é muito envolvente, mas pouca gente a associa a ele, por ela ser já de 1981 e não da série de hits sessentistas que o celebrizaram; e que lhe valeu o terceiro Oscar de sua carreira, pelo tema original do filme “Arthur, o milionário”.
Em julho, Paula partiu para convidar os músicos com quem gravaria. Fechou um timaço, com o trio principal com ela no piano, Sergio Barrozo (do legendário Rio 65 Trio, com Dom Salvador e Edison Machado), no contrabaixo acústico e Cesar Machado (figurinha fácil na banda de grandes estrelas da MPB), na bateria, e várias participações muito especiais. É ou não é um luxo contar com o talento de mestres como Gilson Peranzzetta, Roberto Menescal e o próprio Marcos Valle num mesmo disco? De lambuja, conclamou também os craques Carlos Malta, Ricardo Santoro (do Duo Santoro), Jessé Sadoc e jovens talentos como Jéferson Victor e Aldivas Ayres. A turma toda se reuniu no estúdio Fibra, na Barra da Tijuca (RJ), em cinco dias, entre 15 e 22 de agosto.

Arranjos elegantes

Ah, sim, os arranjos! Estes trazem uma surpresa a cada faixa. Raindrops…, por exemplo, beira o “lounge”, entre a bossa e o bolero, sendo a única em que ela larga o piano acústico e ataca um Fender Rhodes. Wives and lovers ganhou uma introdução em compasso de 5 tempos, numa referência ao tema Take five, do saxofonista Paul Desmond, que está no álbum Time out, do cultuado jazzista Dave Brubeck. Em seguida, Seu encanto começa em valsa-jazz, se encaixando perfeitamente à levada de Wives… também em 3/4. Nesse andamento também é o início da versão igualmente jazzística de Terra de ninguém, com formação típica de trio de jazz – piano, baixo e bateria – que depois desemboca num samba-jazz comum aos trios dos anos 60, sendo gravada com os três músicos tocando ao vivo.
No momento piano-solo de Paula, ela vem bem introspectiva com Preciso aprender a ser só e A house is not a home, com direito a uma breve citação de Close to you ao final. Já Arthur´s Theme ganhou uma leitura jazz bem pop, graças ao órgão Hammond pontuando a melodia, incluindo também à inconfundível guitarra de Menescal. A incendiária fusão de Promises Promises (única e explosiva incursão de Bacharach pela Broadway) & Campina Grande (clássico do instrumental tupiniquim) começa com um baião em 5 tempos, antes do ritmo binário normal, e no final vira uma marcha-rancho com clima de cidade do interior. Outra boa sacada foi o medley de What the world needs now e Um novo tempo. Unidas inicialmente pela semelhança das letras, ambas, mensagens de confraternização, Paula detectou também outras afinidades entre elas, como fica evidente no final, quando sobrepõe completamente as duas melodias, ajudada pelos timbres de flauta e trombone, com adesão do homenageado Marcos Valle, no Fender Rhodes.

Alegrias convergentes
De Burt não sabemos ainda a opinião, mas Valle aprovou o que viu e ouviu. “Tenho uma identificação total com a obra do Bacharach. A música dele sempre tem uma alegria, que a minha também tem. É uma semelhança muito forte. O projeto de vocês de unir as duas coisas soou bem natural. Quando me vieram com a idéia, realmente eu não sabia como fazer, nunca tinha pensado nisso, pois este trabalho é algo bem difícil de fazer. Mas o resultado artístico foi muito bom!”, diz ele, aproveitando para elogiar o trabalho da pianista. “Paula tem um toque pessoal, um estilo, um gosto e uma linguagem muito particular, que é o mais importante no trabalho de um intérprete. É isso que prevalece sobre qualquer técnica ou aprendizado”.

Temos aqui então um trabalho diferente e fascinante sobre a obra desses dois gênios da moderna música popular, que reúne algo de bossa, soul & pop, de acústico e eletrônico, com a tradição da melhor canção popular do Brasil e dos Estados Unidos, e que Paula Faour tão bem soube decifrar, reinventar e aglutinar. É hora então de viajar por esse cruzamento de sons que parecem já ter nascidos juntos e agora estão voando por aí, como duas aves sobre a Praia do Arpoador, onde tanto Valle surfou, ou sobre os céus de Kansas City, onde Bacharach veio ao mundo, há 80 anos, seguindo para a mítica Nova York, onde cresceu, fez fama e onde Valle também foi consagrado.

por Rodrigo Faour – Pesquisador e Produtor Musical



ASSINE NOSSO MAILING

Email




Copyright ©  2011 - Todos direitos reservados a Paula Faour

Desenvolvido por